sábado, 16 de agosto de 2008

O Pedreiro





Quem passa hoje no largo fronteiro à Escola Industrial Infante D. Henrique, não faz ideia das peripécias que envolveram a estátua do pedreiro erigida no referido largo.

As escolas técnico-profissionais, sobretudo o ensino nocturno, porque frequentado por adultos, eram ninhos de professores e contínuos bufos da pide, era célebre o “Jesuíta” (alcunha), professor de inglês da Escola Comercial Oliveira Martins, que logo a 26 de Abril de 1974 foi em ombros direitinho ao lago dos peixes que havia à entrada da escola na Rua do Sol.

Era frequente verem-se grupos de alunos dos denominados “sempre os mesmos” em autenticas reuniões, nas salas de recreio, nos recreios propriamente ditos, e nos cafés das redondezas.

Sempre que a pide entrava nas escolas, era para levarem mais um, dois, ou mais, desses que costumavam reunir-se aos magotes, a eles eram atribuídos os escritos que apareciam pixados nas paredes das instalações da mocidade Portuguesa.

Voltando ao pedreiro…

Um belo dia pela manhã, a Rua da Torrinha estava cortada ao trânsito, corriam os anos 60, o pedreiro, estátua de bronze que pesa umas boas centenas de quilos, havia desaparecido do seu sítio, e fora encontrado cheio de velinhas acesas no largo frente à Maternidade Júlio Dinis.

Tinha sido levada de madrugada, a pulso, pelos “alunos da noite”.

A Escola Infante D. Henrique estava totalmente cercada pela PSP e uns senhores vestidos de negro (pide).

Os alunos estavam barricados na escola, não era permitido entrar nem sair.

A situação manteve-se assim durante horas, a pide entrava e saía, até que uma figura conhecida de todos, o professor Pedro Homem de Melo, saiu resoluto, dirigia-se a um oficial do exército que deveria estar a comandar as operações.

Não teve tempo de dizer nada, nesse mesmo momento a força policial invadiu a escola, entravam por tudo quanto era acesso (a escola tem vários portões que se mantinham sempre fechados, nesse dia abriram-se todos), e sem diálogo, começaram à bastonada a quem lhes aparecia pela frente.

A escola ficou em alvoroço, era de manhã, a maioria dos alunos tinha entre 12 e 15 anos, todos tentavam fugir como podiam à fúria da polícia, na mão dos pides podiam ver-se as famosas mocas (cassetetes pequenos com a ponta em chumbo revestido a couro em forma de bola).

Eles (alunos) esgueiravam-se à polícia, outros saltavam pelas grades ajudando-se uns aos outros como podiam.

Passados uns 30 minutos que pareceram horas tudo acalmou.

Pedro Homem de Melo esbracejava, discutia com as autoridades, mas estava manietado, não o deixavam mover-se, foi metido dentro de um “nívea” (ww carocha da PSP), e da escola saíram alguns alunos mais velhos já algemados, também eles entraram para carochas, mas pretos da pide, e dali foram retirados de imediato.

Tudo tinha acabado, era hora de prestar assistência aos putos feridos, foram metidos nas carrinhas da “ramona” e conduzidos ao Hospital de Santo António, pelo recreio viam-se pastas, sacolas, livros e cadernos espalhados, nas grades haviam casacos, camisolas, camisas, ou bocados deles que pareciam bandeiras, a guerra tinha acabado.

O pedreiro só voltou ao outro dia, estava ligeiramente mais pesado, do traseiro saía um ferro que serviu para o cravar à pedra, antes estava pousado.

Em frente à estátua do “viajante” foi erigida coisa parecida com um marco de correio, em ferro, resistente, com um manípulo, um auto falante, um microfone e uma placa onde se lia “polícia, urgência, rode o manípulo”.

Durante uns tempos todos tinham medo do aparatoso equipamento como se de um polícia se tratasse, mas o tempo espanta os temores, e a “coisa má” passou a fazer parte das brincadeiras dos mais ousados, bastavam dois, um a vigiar o polícia de giro e outro a rodar a manivela, passados 5 minutos ouvia-se uma sirene, e mais um ou dois lá estava um “nívea” à porta da escola.

Quem hoje passa no largo, que não recordo o nome, não sonha as aventuras em que esteve envolvido o pedreiro, nem a verdadeira batalha campal a que as paredes da escola assistiram com polícias furiosos à bastonada a crianças.

Por estas e por outras, também eu grito bem alto


Viva a Liberdade


25 de Abril Sempre


Viva Portugal.

4 comentários:

mulher lua disse...

Engraçado, não conhecia esta cena. E que cena!!!

Veijios

dragao vila pouca disse...

Meu caro não estive nesses acontecimentos, mas já os conhecia até porque fui aluno do Infante e tive como professor Pedro Homem de Mello.Também cheguei a fazer parte do grupo Folclórico que o professor dirigia. Bons tempos e que saudades...
Um abraço

Des Contente disse...

Não me digas...
Eu cheguei a ir assistir a alguns ensaios, o (hoje) actor Oscar Branco era meu vizinho, somos amigos desde putos e ele também andou por lá nas danças, ahahahah...
Como o mundo é pequeno.
Um abraço.
Zé Porto

Manuel Pimenta disse...

www.ccac2504,blogspot.pt

Recordo exactamente dessas peripécias, e aconteceu uma em que o dito, foi parar às casa de banho dos homens. Tirei nessa escola, o Curso de Especialização de Desenhador Industrial, acho que no ano 1965/6.
Gostava muito de encontrar os meus colegas de curso. Eu sou o Pimenta, recordo do Pedrosa, do Filho do mestre Santos, do Sanches etc.